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O diamante bruto do xadrez brasileiro
André Diamant, de 19 anos, é o mais novo grande mestre. É apenas o 8º brasileiro a ostentar esse título
Valéria Zukeran -
estadao.com.br
André Diamant tem 19 anos, mas já pode entrar na galeria dos heróis
improváveis, feitos de talento, que o esporte brasileiro vez ou outra
fabrica. Seus pais se separaram quando ainda era criança, ele viveu
dois anos em Jericoacoara (CE), perdeu a mãe e ganhou um filho no ano
passado... Mas nada impediu o jovem de conquistar o título de grande
mestre de xadrez, feito que somente outros sete brasileiros já
conseguiram.
André
está longe do estereótipo do nerd tímido, cercado de livros e sem vida
social. Na identificação no MSN (sistema de comunicação via internet),
o jovem escolheu uma foto em que está sorridente, cercado de amigos.
Diz que gosta de futebol (torce para o Santos) e que as pessoas que o
conhecem não se intimidam com o fato de ele ser um enxadrista. "Os que
não são enxadristas acham que é um negócio de nerd, porém eu sempre
estou indo para muitos países e aí o pessoal acha legal."
Mas
sua vida não é totalmente igual à dos outros jovens de sua idade.
Dedicação e treino são necessários."Não posso ser igual aos outros
garotos da minha idade porque abri mão de várias coisas."
A vida
de André sempre foi cheia de desafios. Ainda menino, o pai e a mãe se
separaram e ele ficou com o pai, Jean, que o ensinou a jogar xadrez aos
4 anos. "Meu pai sempre incentivou bastante. Ele é fanático."
De
origem judaica, André começou a tomar aulas com com Sidney Corrêa Filho
aos 6 anos. Aos 8 foi para o clube A Hebraica. Orgulhoso de suas
raízes, competia usando quipá, que com o tempo foi substituído por
bonés. O quipá, segundo André, era usado em sinal de respeito. "Hoje o
povo fala que dá sorte eu jogar de boné", se diverte.
O dom foi
notado rapidamente. "Quando criança dava para perceber que ele era um
talento. Compreendia com muita rapidez a parte tática", comentou seu
ex-professor, David de Israel. O raciocínio rápido chamou a atenção de
outros associados da Hebraica, que lhe ofereceram bolsa de estudos e
incentivo para continuar nos tabuleiros. Aos 11 anos, André passou dois
meses na Rússia, estudando com especialistas, depois foi para a
Espanha. "Dei um grande avanço. Foi uma grande experiência de vida."
Pouco
tempo depois, o pai de André resolveu morar em Jericoacoara, uma praia
paradisíaca. O menino continuou seus os estudos via internet. "Isso me
afastou um pouco do xadrez, mas me abriu para o mundo. No fim, acho que
acabou fazendo parte do meu aprendizado."
Mas grandes
incentivadores de André, como José Luiz Goldfarb, não se conformaram
com seu afastamento e foram buscá-lo no Ceará. O jovem passou a morar
com a família de Viviana Bigio e retomou o rumo nos tabuleiros. Aos 17
anos já era mestre internacional.
No ano passado, porém, quase
tudo foi por água abaixo. André estava mal no xadrez e na faculdade de
sistemas de informação, perdeu a mãe e descobriu que a namorada estava
grávida. Foi uma fase de preocupações, superadas com o apoio de
Goldfarb e dos patrocinadores, (Medial, Banco Rendimento e Hebraica)
que não o abandonaram. "Descontei tudo no xadrez. Sabia que a forma de
lidar com tudo era dar uma crescida e amadurecida na vida."
André
reestruturou a rotina, levou o filho Isaac para ser circuncidado na
casa do avô, em Jericoacoara, e pegou firme nos treinos com o Gilberto
Milos, seu atual professor. Na semana passada, foi à Argentina
participar do Magistral de Ajo. Precisava de uma norma 6,5 na
competição, que contava com três grandes mestres. "Estava confiante. Eu
não espero nada não. Fui buscar o 6,5." Voltou vitorioso. Como grande
mestre, André ainda não sabe como será seu futuro no xadrez, mas espera
ter uma família grande e transmitir a paixão pelo esporte ao filho, de
4 meses. "Deixarei ele optar se quer ser enxadrista ou não, mas espero
que seja."
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