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Entrevista com o GM Paco Vallejo
Entrevista realizada por Vanessa R. M. para o site Zona de Ajedrez.
A
primeira coisa que tenho de fazer é te agradecer, sei que estás muito
ocupado, que agora mesmo estás trabalhando na Alemanha e te agradeço
enormemente que tenhas tirado tempo para responder a nossas perguntas.
De modo pessoal, te direi que há poucas pessoas que são capazes de ser
tão claros e diretos como tu, e estas qualidades fazem meu trabalho
mais interessante. Muito obrigado, Paco.
Começamos com a entrevista.
- Que posto ocupa em importância o xadrez em tua vida?
Das coisas espirituais, ocupa um posto médio, das coisas materiais, um posto muito alto.
- Quais são tuas três melhores qualidades como enxadrista?
Sou autocrítico, bastante realista e sou muito "mal intencionado".
-
Te submetes a alguma preparação física ou psicológica antes de
enfrentar-te a um torneio? Em que consiste a preparação psicológica de
um enxadrista?
Minha preparação física deixa muito a
desejar, sempre tenho planos de melhorá-la, mas, na realidade, está
longe de ser a ideal. A psicologia em xadrez é fundamental, creio que
poderia melhorar algumas coisas, mas em general, pelo menos consigo que
meu esforço durante as partidas seja muito grande.
- Que parâmetro utilizas ao participar de um torneio?
Os
interesses desportivos sempre primaram em minha carreira, embora tenha
muito em conta a parte econômica, já que também tenho em mente que
minha vida como enxadrista profissional não pode durar para sempre.
-
Todo mundo enumera os benefícios de jogar xadrez. Tu levas toda a vida
praticando este esporte, quais são os aspectos negativos deste jogo?
Pode
chegar a ser muito absorvente, algo como acontece com o pessoal que se
fascina com os videogames. Por outra parte, minhas vistas se
ressentiram pelos anos de estudo diante do computador, e ficar sentado
tantas horas ao dia não deve ser muito saudável, ainda que, com um bom
planejamento desportivo (coisa que ainda não consegui), não deveria ser
um grande problema.
- Tenho conhecimento de que não serás um
dos enxadristas que participarão do Grand Slam de Bilbao. Creio que
fazem dois anos que não te convidam ao torneio de Linares. Sendo
espanhol, e sabendo todos que és um dos melhores enxadristas de nosso
país, acho estranho que em ambos os acontecimentos brilhes por tua
ausência. A que atribuis o fato de os organizadores destes torneios
prescindirem de ti?
Não sei, suponho que passou o momento
onde eu estava “na moda”. Meu ranking chegou a estar entre os 20
melhores do mundo e quando forem publicadas estas linhas estarei além
do 70º lugar. Obviamente eu tenho culpa nisso, e não Linares ou Bilbao.
Por outro lado, me dá um pouco de pena sermos o único país no mundo
onde acontecem facilmente 3 torneios nos quais não participam nenhum
jogador desse país. Normalmente, e tendo em conta que o dinheiro com o
qual se organizam a maioria dos torneios é em grande parte dinheiro
público, ficaria bem se os organizadores fizessem um esforço para
incluir ao menos um jogador espanhol. Podemos ver os casos de super
torneios mundiais como Dortmund ou Wijk Aan Zee, onde sempre se leva em
consideração que para haver o envolvimento do público e da imprensa é
interessante ter alguns, senão vários, jogadores nacionais.
-
As más línguas dizem que chegaste a teu limite, que inclusive teu nível
de jogo piora com o passar dos anos. Chegaste a estar no posto 18 da
lista de ELO FIDE, atualmente estás no 38º... Os dados falam por si
mesmos, a que acreditas que isso se deve?
Sim, não são
necessárias as más línguas, qualquer pessoa próxima a mim verá que não
me escondo nesse aspecto. As coisas não estão como eu gostaria, mas te
asseguro que sempre estou pensando em um forma de mudar isso. Não se
deve a um só motivo, mas, entre meus defeitos enxadrísticos, poderia
mencionar: preparação deficiente, sobretudo com brancas (poucas ideias
novas), estado físico apenas aceitável, cair com frequência em apuros
de tempo, durante um período tive certa falta de motivação e problemas
pessoais que logicamente afetaram meu rendimento.
- Quais os três conselhos darias a um aficionado para melhorar seu nível de jogo?
Que
leia alguns livros de xadrez com os quais realmente consiga desfrutar
(meu favorito é “Al Ataque”, de Mikhail Tahl); que se associem a um
clube (mesmo que seja pela internet) para compartilhar dúvidas e
experiências; que cuide dos detalhes que pareçam insignificantes, mas
que realmente afetam ao jogo. Por exemplo: uma discussão com a mulher,
comer excessivamente antes da partida, etc…
- Tens três linhas para dizer o que queiras, a quem queiras.
Por
que só três linhas? Não querias que fizesse outro artigo? Sempre me
causa alegria quando vejo que alguém entra no mundo do xadrez com tanta
energia como tu o fizeste. É um mundinho bastante fechado e se sente
falta de ideias novas e de gente com vontade de fazer as coisas.
Felicitações pela página e boa sorte!
Como já te contei em alguma ocasião, Zona de Ajedrez tem uma seção em que os usuários podem fazer perguntas a nossos entrevistados. Estas são as perguntas que selecionamos:
(Nogueira): Queria
perguntar-lhe algo que imaginei e não sei se é verdadeiro, suponhamos
que sim: O que se sente, ou sentiu, por ter sido sempre (desde menino,
muito precocemente) a "esperança espanhola", como se "tudo" dependesse
de que "Paco dê certo"? Se não seria melhor livrar-se desse peso de
"quartas de final", "pênaltis" etc... dos ombros (caso seja verdadeira
minha hipótese) e ver-se como um jogador GM dos top do mundo
que, além disso é espanhol, mas sem esse ônus de responder por todo um
país... Quais são seus planos para o futuro quanto a aspirações e
ambições no xadrez e em sua vida em geral?
Creio
que eu mesmo tenho sido o que mais me tenha pressionado, e
provavelmente isso não tem me ajudado. Para os que viram Spiderman :),
me sentia um pouco identificado com a frase “um grande poder pressupõe
uma grande responsabilidade”. Por outro lado, como latino, creio que
sou um jogador que depende muito de fatores externos e psicológicos.
Para mim, foi doloroso ver como jogadores que na juventude não tinham
mais “talento” que eu tenham ultrapassado a barreira dos 2700 e a mim
não tenha sido possível há anos.
A respeito de minhas aspirações
enxadrísticas, está claro que quero voltar à minha melhor forma. Creio
que tenho um potencial muito maior do que o que se tem visto de mim.
Estou convencido de que se verá o melhor Vallejo não dentro de muito
tempo… e para isso tenho que corrigir os defeitos que mencionei
anteriormente.
Suponho que na vida aspiro a ser feliz (como todo
o mundo) . Tento não incomodar ninguém, valorizo muito a amizade.
Gostaria de um dia ter a calma e a honestidade para seguir um estilo de
vida que admiro; li um livro sobre o Tao faz alguns anos, me
impressionou muito, porém só coloquei em prática as ideias mais básicas.
(ironmaiden): Com qual dos jogadores da chamada "elite" gostas mais de jogar?
Me
dá igual prazer jogar com qualquer um. A verdade é que me agradaria
jogar contra aqueles que tenho piores resultados(Ponomariov, Sutovsky,
Ivanchuk) para demonstrar a mim mesmo que posso ser tão bom ou melhor
do que eles.
(Un Virgen): O
que acreditas que te falta para chegar a essa famosa elite? Talvez um
pouco mais de confiança em ti mesmo? Ou acreditas que teu jogo é pior?
Sobretudo
me faltam muitos pontos elo :). A confiança em si mesmo é fundamental
e, às vezes (sobretudo quando as coisas não vão de todo bem), perco a
fé em meu jogo e isso me leva a jogar pior. Quanto à qualidade de meu
jogo, sinceramente creio que poderia estar entre os 5 melhores do
mundo, mas me falta corrigir um monte de coisas que mencionei antes…
(Anônimo): Tenho lido sua web
e me chamou a atenção as críticas que realiza à FEDA. Poderia me dizer
três grandes pecados de nossa Federação Espanhola de Xadrez, em sua
opinião?
Hmm, bom, eu não critico demais à FEDA
(talvez devesse?):). Se se refere ao "Gruñón" (Resmungão), esse é meu
pai e não eu. Em muitas coisas que diz estou de acordo, ainda que não
necessariamente em todas.
- Depois de muitos anos e muitíssimos torneios de alto nível na Espanha, os enxadristas seguimos sendo uns desconhecidos - Quanto a sponsors, não estamos para soltar foguetes. -
Continua-se gastando essa dinheirama em coisas como ir votar em
assembléias, quando cada um poderia votar desde sua casa com um grande
invento como o e-mail (talvez devesse ter aplicado esse conto e dizer a
Vanesa que me pagasse diárias e viagens para ir fazer a entrevista… ),
embora entenda que assim não se cobrariam diárias nem viagens… (segue
parecendo-me muito miserável). - Creio que não se conseguiu criar
algum tipo “de estrutura” que permita a um jogador formar-se e
progredir adequadamente. Refiro-me a que, se com 18 anos não tens ao
menos 2550, é melhor dedica-te ao encanamento…
(Poyito): Por
que continuas empenhado em não mudar seu repertório de aberturas? Você
acredita que deveria ser mais ambicioso com as peças brancas?
Hmm,
a que aberturas se refere? Creio que sou o jogador que mais muda de
aberturas no mundo. :) Para mencionar alguns detalhes… com brancas
jogo: 1.Cf3, 1.e4, 1.d4 e 1.c4 ; com negras: espanholas variadas,
sicilianas variadas, Caro-Kann, Francesa, Grunfeld, Semi-Eslava,
Ragozin etc… O que me falta com brancas não é ambição… são ideias
frescas e bem analisadas. Para isso, há que trabalhar mais e melhor.
(Gloderhel): Dos TOP 50
da FIDE, mais da metade nasceram nos anos 80, ou posteriormente. Tem
tanta importância assim a forma física que se supõe ter um menino
jovem? Ou pode ser atribuído mais a outros fatores, como a acomodação,
desmotivação, etc. dos jogadores mais veteranos.
Está
claro que os jovens têm mais energia e mais ilusão, mas menos
conhecimentos. Muitas vezes umas coisas compensam as outras. Nesse
sentido, o xadrez é bastante imprevisível.
(Gloderhel): O que há de verdadeiro nas declarações de Mirzoev em Zona de Ajedrez a respeito de que os jogadores do TOP TEN jogam pouco e só entre si para manterem-se ali em cima?
Bom, os jogadores do TOP TEN
chegaram lá por algum motivo… isso ninguém vai discutir. Também é
verdade que os circuitos são bastante fechados, e é difícil entrar
neles. Mas, basicamente, é um problema de concorrência, muitos
jogadores fortes para poucos grandes torneios com boas condições.
Alguns organizadores são mais imprevisíveis, mas haveria torneios em
que me atreveria a dizer quem seriam os participantes nos próximos dois
anos, e não creio que me equivocasse muito. |