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Paul Morphy (1837-1884)
Paul Morphy (1837-1884), gênio do enxadrismo norte-americano.
Conhecido como "o orgulho e a tristeza
do xadrez", Morphy foi um grande jogador, mas sua verdadeira categoria
- em comparação com outros campeões - permanece um enigma até hoje,
mais de cem anos depois de sua morte. Entre todos os enxadristas
conhecidos como os melhores do mundo em suas épocas, ele teve a
carreira mais curta e jamais encontrou um adversário que pudesse
vencê-lo. Sua fama tem sido sustentada por menos de 75 partidas
sérias e um número maior de brilhantes vitórias em partidas informais.
Morphy foi aclamado como prodígio
aos doze anos de idade, quando derrotou o mestre
Lowenthal, em visita
à cidade natal de Morphy, Nova Orleans, numa série de partidas amistosas.
Então, em 1857, teve lugar um acontecimento
que projetou consideravelmente o nome e a carreira de Morphy. Foi
o primeiro congresso norte-americano de xadrez, em Nova York, que
- por sorte - ocorreu na época em que Morphy estava à altura dele.
O congresso consistia numa série
de matches eliminatórios, e Morphy derrubou seus três primeiros
adversários antes de derrotar Louis Paulsen no match final por 6
a 2. Paulsen mostrou-se, mais tarde, um excelente jogador e grande
estrategista, sendo que muitas de suas idéias de
abertura foram
adotadas por grandes mestres um século depois. O fato de Morphy
ter vencido esse mestre da defesa pode ser uma prova melhor de sua
força do que sua vitória, muito mais admirada, contra
Anderssen.
Os sucessos de Morphy baseavam-se
em seu conhecimento das posições abertas e no fato de saber desenvolver
as peças rapidamente nas clássicas aberturas do flanco do rei e
tomar a iniciativa de maneira econômica, sem desperdiçar lances.
Geralmente, os contemporâneos de Morphy atacavam sem uma base de
desenvolvimento sólido ou jogavam um xadrez de manobras, com lances
desperdiçados e irrelevantes que emperravam seus planos.
A vitória mais famosa de Morphy ocorreu
durante o intervalo de uma ópera, contra dois dignitários jogando
em consulta. Trata-se da partida amistosa mais celebrada e instrutiva
de todos os tempos.
Morphy viajou à Europa em 1858 e
derrotou todos os seus desafiantes, inclusive com uma margem de
8 a 3 contra Anderssen, que vencera o Primeiro Torneio Internacional
de Londres, em 1851. O campeão inglês, Staunton, driblou as tentativas
de Morphy de marcar uma partida - sabiamente, pois os maiores sucessos
de Staunton haviam ocorrido na década anterior e não se tinha dúvida
de que Morphy venceria. Mas, depois de ter provado sua supremacia
sobre seus contemporâneos, Morphy perdeu seu interesse pelo xadrez,
e o fim de sua vida, marcado pela doença mental, fez dele um recluso
e o levou a desprezar o jogo nos seus quinze últimos anos.
Como teria Morphy enfrentado os campeões
de gerações mais recentes? O conhecimento das aberturas em torno
de 1860 era ainda rudimentar e Morphy necessitaria de um curso intensivo
em teoria moderna para poder enfrentá-los. Certamente, ele assimilaria
tais informações com rapidez, pois conhecia a teoria de sua época;
uma de suas vitórias contra Anderssen se deu graças a uma variante
preparada da Ruy López.
Em seu excelente livro The rating
of chessplayers past and present (edição Batsford), que inclui uma
comparação dos níveis dos grandes mestres modernos e seus antecessores,
o Professor Arpad Elo confere a Morphy um grau 2690, o suficiente
hoje para torná-lo um dos mais fortes jogadores do mundo. Tenho
minhas dúvidas sobre esse veredicto, que se baseia em poucas partidas
e não leva em conta a doença de Morphy, que prejudicou seus resultados
no fim da vida, assim como ocorreu com
Rubinstein.
Mas essa avaliação convida a um exame
das partidas do match entre Morphy e Anderssen, reconhecido como
outro grande enxadrista. Anderssen não competia desde 1851 e saiu
prejudicado com aberturas inferiores tais como 1. a3 e a defesa
Central, que proporcionou a melhor vitória de Morphy no match.
O comentário embaraçado de Anderssen,
após sua derrota no match, foi: "É impossível preservar o próprio
talento numa caixinha de cristal, como uma jóia, para tirá-lo quando
necessário. Pelo contrário, ele só pode ser conservado por uma prática
sólida e constante". Em seus últimos matches contra Kolisch e
Steinitz, Anderssen deixou de lado tanto 1. a3 quanto a defesa Central e saiu-se
muito melhor.
Quanto a Morphy, seu último feito
antes de deixar o xadrez competitivo foi oferecer peões e lances
de vantagem para qualquer desafiante do mundo. Ninguém aceitou -
o que seria inconcebível se semelhante oferta fosse feita atualmente
por um grande mestre famoso. O paralelo moderno mais próximo é a
proposta de Fischer, dando cavalos de vantagem a qualquer enxadrista
feminina do mundo, que ele abandonou rapidamente quando as autoridades
do xadrez soviético mostraram entusiasmo em fazê-lo jogar contra
a então campeã mundial, Nona Gaprindachvili, envolvendo uma aposta
substancial.
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