A trágica vida do Dr. Tarrasch
Frank Mayer Enxadrista de origem alemã, residente em Barcelona. Catalunha, Espanha
Siegbert Tarrasch: Jogador de xadrez, médico, alemão, judeu. Nascido em 1862, em Breslau (Wroclaw / Polônia). † 1934 em Munique
Na
vida do Grande Mestre de xadrez e médico Dr. Siegbert Tarrasch
percebe-se claramente a tragédia da tentativa de integração judia,
apesar de Tarrasch não ter morrido nas câmaras de gás de Ausschwitz ou
Trebelinka.
Seu dogmatismo e seus modos ofensivos,
apresentados como pedantes com certa frequência, somente poderão ser
entendidos se forem levadas em conta as circunstâncias daquela época.
Consequentemente, o dogmatismo de Tarrasch pode ser interpretado como uma luta por seu reconhecimento de judeu entre alemães.
Numerosos
fatos nos dizem que se distinguiu por uma necessidade exagerada de
conseguir um reconhecimento público, com o fim de compensar o
sentimento de inferioridade dos judeus.
Tarrasch sempre se esforçou em demonstrar pertencer à Alemanha e em ser um bom alemão.
Tomemos alguns exemplos significativos:
Uma
vez, terminado o torneio internacional de Hamburgo em 1885, onde
conseguiu o segundo posto atrás de Gunsberg, queixou-se amargamente de
que “toda a imprensa estrangeira me reconheceu sem reparos,
especialmente Zukertort em Chess ‘Monthly’ e Steinitz em ‘International
Chess Magazine’..., mas toda a imprensa alemã de xadrez guardou um
silêncio eloquênte.”
Quando Tarrasch ganhou o torneio de
Manchester em 1890, recalcou que se alegrava de ter conseguido cumprir
o sonho dourado dos alemães.
Não queria ser o primeiro entre os alemães, mas ser o campeão do mundo para Alemanha!
Tarrasch era pai de cinco filhos de seu primeiro casamento, três filhos e duas filhas.
Em
pouco tempo, entre os anos 1914 e 1916, morreram seus três filhos. O
maior, Dr.Phil. Fritz Tarrasch, faleceu em 1915, como tenente na I
Guerra Mundial. O segundo filho se suicidou, enquanto o terceiro foi
atropelado por um bonde em Munich em 1916.
Apesar destas
tremendas perdas, não deixou de seguir estudando e jogando xadrez, e
inclusive chegou a dizer que se encontrava francamente bem.
No
entanto, sua derrota ao final do mesmo ano contra Emanuel Lasker pelo
resultado de 5,5:0,5, demonstrou que os golpes sofridos lhe influíram
decisivamente de forma negativa.
Depois do divórcio de sua primeira mulher no ano 1924, casou-se novamente alguns anos mais tarde e viveu em Munique.
Já
com 70 anos completados, editou sua própria revista de xadrez,
reclamando sempre iguais direitos para os alemães e para os judeus.
Não obstante, durante toda sua vida, silenciou sobre sua origem judia, embora todos o soubessem.
Quando de sua morte, a revista alemã de xadrez publicou:
“Na
madrugada de 17 de fevereiro de 1934, justo antes de cumprir os 72
anos, faleceu Dr. Siegbert Tarrasch... Foram a seu enterro amigos e
alguns representantes dos clubes de xadrez de Munique; o clero se
distanciou... Pois foi aquele homem, que depois da morte de Anderssen
levantou novamente a glória do xadrez germânico... Sem paciência e com
frequência injusto frente aos críticos, que não admitiram submeter-se a
sua tutela, foi ele mesmo de uma delicadeza sensitiva.”
Inclusive Albert Einstein escreveu, que “foi a tragédia de um judeu alemão, a tragédia de um amor recusado”.
Desde
o ponto de vista atual, as complexas relações da história judeu-alemã
não devem ser esquecidas pelo xadrez moderno (queremos dizer: ‘o xadrez moderno dos torneios’),
começando em 1851 com Adolf Anderssen, sem que se possa relatar
convenientemente os méritos dos judeus alemães como Wilhelm Steinitz,
Siegbert Tarrasch e Emanuel Lasker.
Isso deve ser visto claramente, depois de mais de 60 anos da capitulação e do fim do regime nacional-socialista.
Seguramente, Siegbert Tarrasch, de Breslau, verdadeiramente o “preceptor mundi do xadrez”, o veria da mesma forma.
Finalmente, umas palavras de Tarrasch:
“Sempre
senti um pouco de pena daquelas pessoas que não conheceram o xadrez.
Justamente o mesmo que sinto por quem não foi embriagado pelo amor. O
Xadrez, como o amor, como a música, tem a virtude de fazer feliz ao
homem”.
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Fotos cortesia: http://www.androom.com/ _____________________________________
Frank Mayer - Revisado por Antón Busto Barcelona, Setembro de 2006
Fonte literária: Dr. Harald E. Balló
Publicado originalmente no site TablaDeFlandes.com. |