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História do Xadrez

A criação do xadrez é um grande mistério e não há dados históricos que confirmem a exata origem do jogo. Alguns historiadores atribuem sua criação ao Rei Salomão, que governou Israel de 961 AC a 922 AC; outros, aos sábios mandarins contemporâneos de Confúcio. Porém, há indícios de que o xadrez já era disputado no Antigo Egito.

O documento mais antigo sobre o jogo é a pintura mural da câmara mortuária de Mera, em Sakarah (nos arredores de Gizé, no Egito). Ao que parece, essa pintura, que representa duas pessoas jogando xadrez, ou algo semelhante, data de aproximadamente 3000 anos antes da era cristã. Porém, há registros indicando que o jogo era disputado na Índia, onde teria surgido por volta do século V ou VI de nossa era, derivado de antiquíssimo jogo hindu conhecido por "Chaturanga", nome que aludia às quatro armas (anga) do exército indiano: elefante, cavalos, carros e infantaria. Daí ele teria passado à Pérsia. Do mundo islâmico, o xadrez chegou à Europa por vias distintas: a invasão muçulmana da Península Ibérica e a Primeira Cruzada.

Tal como é jogado atualmente, o xadrez é Medieval em seu caráter. Se assemelha a uma guerra convencional e a um jogo da corte, conforme pode ser visto pelos nomes e ação das peças. Foi o jogo dos Reis e hoje é o Rei dos Jogos. Os peões são os oficiais subalternos, cobrindo e batalhando à frente da cavalaria, dos bispos e personagens da realeza. Os cavalos, bispos, rei e rainha (dama) são auto-explanatórios, enquanto as torres representam as fortalezas dos nobres. Se todos esses personagens desapareceram de muitos países do mundo, o xadrez permanece como um jogo de distinção social, capaz de exigir da mente humana o mais elevado esforço. Com o advento da Internet, praticamente acabou a antiga forma de xadrez postal. Esta forma de jogo era bastante demorada e tediosa, onde cada lance era feito por uma carta. Como exemplo, um competidor fazia um lance, enviava uma carta e ficava à espera da resposta do oponente. Assim, o jogo demorava anos para ser finalizado.

No Brasil, o jogo existe desde 1808, quando D. João VI ofereceu à Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, um exemplar do primeiro trabalho impresso sobre a matéria.

 

A História do Campeonato Mundial de Xadrez (1886-1998)

 

Em 1886, o campeonato mundial de xadrez foi oficialmente reconhecido com a primeira disputa pelo título mundial entre Steinitz e Zukertort. Steinitz (de 1886 a 1894), Lasker (de 1894 a 1921), Capablanca (de 1921 a 1927), Alekhine (de 1927 a 1935) e Euwe (de 1935 a 1937) foram os campeões mundiais que escolhiam os adversários e as condições para a disputa do título, sendo que às vezes o desafiante não conseguia reunir a bolsa suficiente para enfrentar o campeão. Lasker, por exemplo, ficou onze anos sem colocar o título em jogo, sendo um dos motivos a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Vários grandes jogadores da época de Lasker ficaram excluídos da disputa do título, por decisão do campeão, que não o colocou em disputa contra Reti, Rubinstein, Nimzowitsch, Tartakower e Pillsbury.

 

Acima, as fotos de, Steinitz (1896), Lasker (1892) e Capablanca (1922)

 

 

Em 1937, Alekhine (russo, mas naturalizado francês) foi o primeiro campeão mundial a recuperar o título no match revanche contra Euwe e o manteve sem defendê-lo até sua morte em 1946. A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) impediu que Alekhine colocasse o título em jogo. Em 1946, quando já estava em negociação seu match contra Botvinnik, o campeão veio a falecer em Estoril, Portugal. Anos depois, seus restos mortais foram transladados para Paris, França. Seu túmulo, com um tabuleiro de xadrez, está no Cemitério Montparnasse.

Foto de Alekhine em 1930 e Euwe em 1955

A FIDE, ao declarar a vacância do título mundial (1946-1948), propôs a realização de um match-torneio para a consagração de um novo campeão. O torneio foi organizado em 1948 e deveria ser disputado pelos seis melhores jogadores da época: Botvinnik, Keres, Reshevsky, Euwe e Fine (melhores colocados em Nottingham 1936, Semmering Baden 1937 e AVRO 1938) e mais Smyslov (campeão de Moscou em 1938, 1942, 1944/45), já que haviam morrido os campeões Lasker (em 1941), Capablanca (em 1942) e Alekhine (em 1946). Fine declinou do convite e Euwe, que queria reassumir o título com a morte de Alekhine, se viu obrigado a jogar o match-torneio e terminar num melancólico último lugar. Torneio, enfim, disputado com cinco jogadores em cinco turnos (vinte partidas por jogador): Botvinnik 14 pontos, Smyslov 11, Keres e Reshevsky 10 ½ e Euwe 4.

Foto de Botvinnik em 1960

Botvinnik tornou-se o sexto campeão mundial e a FIDE criou um sistema de disputa entre os melhores jogadores, um match-torneio nos moldes de 1948, para indicar o desafiante ao título. Os torneios de candidatos de 1950, 1953 e 1956 foram disputados em turno e returno classificando o primeiro colocado para enfrentar o campeão mundial que jogava pelo empate em 12 a 12 (critério sempre existente e que se manteve até o início da década atual) e ainda tinha direito a revanche. A supremacia soviética era muito grande e, durante o período de 1951 a 1963, classificaram-se Bronstein, Smyslov (duas vezes), Tal e Petrosian. O direito de revanche existia e Botvinnik pôde recuperar o título após perdê-lo para Smyslov e Tal. O direito de revanche foi suprimido em 1963 e, após Botvinnik perder para Petrosian, o ex-campeão descartou a hipótese de disputar todo o ciclo do campeonato mundial.

Foto de Smyslov em 1955 e Tal em 1960

Os torneios de candidatos de 1959 e 1962 foram disputados com oito jogadores em quatro turnos (vinte e oito partidas para cada jogador). Nesta época, já existia a figura de Fischer que questionava a forma de disputa do torneio de candidatos. O motivo da crítica era que os jogadores soviéticos faziam jogo de equipe e, assim, Fischer teria que derrotar todos eles para poder se classificar. Fischer teria que jogar partidas duras para conseguir empates, enquanto os jogadores soviéticos empatavam rapidamente entre si.

Foto de Petrosian em 1970

Finalmente, Fischer foi ouvido e a forma de disputa pelo título passou a ser matches eliminatórios, o que impediria os empates rápidos entre os jogadores soviéticos. No torneio de candidatos de 1965 e 1968, sobressaiu-se Spassky. Petrosian manteve o título contra Spassky em 1966, mas veio a perdê-lo para o mesmo Spassky em 1969.

Foto de Spassky em 1989

Em 1971, chegou a vez de Fischer com o avassalador 6 a 0 contra Taimanov, 6 a 0 contra Larsen e a decisão do torneio de candidatos contra o ex-campeão Petrosian, vencendo-o por 6 ½ a 2 ½. Em 1972, Fischer derrotou Spassky no match do século, o confronto EUA x URSS que repercutiu no mundo todo. O match programado para vinte e quatro partidas terminou antes com (+7=11-3) para Fischer, o décimo-primeiro campeão mundial.

Foto de Fischer em 1958

Karpov venceu o torneio de candidatos de 1974 e seria o desafiante ao título. Fischer fez várias exigências (como número determinado de vitórias sem limite de partidas) e acabou por não colocar o título em jogo no ano de 1975. A FIDE, sob pressão da Federação Soviética, tirou o título de Fischer e o deu a Karpov.

Foto de Karpov em 1989

Karpov, que ganhara a final do torneio de candidatos contra Korchnoi em 1974, voltou a enfrentar Korchnoi em 1978 e 1981. O exilado soviético ganhara o torneio de candidatos de 1977 e 1980, enfrentando os jogadores soviéticos e toda a nomenklatura soviética. Em 1978, a polêmica vitória de Karpov por 6 a 5 com 21 empates (a regra era de seis vitórias sem limitação de partidas), fez Korchnoi declarar que Karpov era um "campeão de papel". Em 1981, com a família proibida de deixar a URSS, Korchnoi não mostrou tanta resistência contra Karpov. Posteriormente, em 1990, Tal conversou com Korchnoi e revelou-lhe que a nomenklatura soviética tinha planejado assassiná-lo em "acidente forjado", caso ele ganhasse a polêmica 32ª partida do match de Baguio City em 1978. O comentário de Korchnoi, na Olimpíada de Novi Sad, em 1990, foi de que perdera a partida, mas salvará a vida sem saber.

A estrela ascendente Kasparov venceu o torneio de candidatos de 1983, derrotando Beliavsky, Korchnoi e Smyslov. O polêmico sistema de seis vitórias sem limite de partidas entrou em crise diante da situação do match Karpov-Kasparov (1984/85), quando houve a disputa de quarenta e oito partidas, com cinco vitórias de Karpov, três vitórias de Kasparov e quarenta empates. A polêmica decisão de Campomanes de suspender o match manchou a imagem do xadrez e é a causa de desdobramentos até hoje. Novamente a política e os interesses pessoais atrapalharam o esporte.

Foto de Kasparov em 1989

Em 1985, Kasparov venceu Karpov em novo match limitado a vinte e quatro partidas (+5-3=16), como era o sistema de 1951 a 1972. Em 1986, Kasparov foi obrigado a conceder um match revanche, mas manteve o título por +5-4=15. Em 1987, Kasparov enfrentou novamente Karpov no final do ciclo do campeonato mundial, quando manteve novamente o título na última partida, num drámatico 12 a 12 (+4-4=12).

O ciclo do campeonato mundial (zonais, interzonais e torneio de candidatos) se repetiu e, em 1990, Kasparov manteve o título contra o mesmo Karpov por +4-3=17, no quinto match entre eles. O confronto entre eles totalizara 144 partidas na disputa pelo título com +21-19=104 a favor de Kasparov.

Em 1992, Short derrotou Karpov na semifinal e, em 1993, eliminou Timman na final do torneio de candidatos. A crise Kasparov-Short contra a FIDE, por causa de local, premiação e outros problemas políticos, acabou com ambos os jogadores suspensos pela FIDE. Karpov e Timman jogaram, então, o match pelo título da FIDE. Kasparov e Short criaram a PCA e jogaram um match paralelo. Além disso, em 1992, Fischer reaparecera e concedera um match revanche a Spassky, em plena guerra da ex-Iugoslávia. O mundo do xadrez tinha três campeões mundiais que reivindicavam uma única coroa.

Em 1995, Kasparov enfrentou Anand e manteve o título da PCA. Em 1996, Karpov enfrentou Kamsky e manteve o título da FIDE (Neste match, o campeão já não tinha mais o direito de empate e deveria jogar um tie-break). O atual sistema de disputa, em que há privilégios para Kasparov e para Karpov, impede que outros jogadores possam chegar a disputar o título mundial. O caminho é longo e difícil para a maioria, mas para Karpov e Kasparov basta defender o título num match. Todos os sistemas adotados ao longo da disputa pelo título mundial (1886-1996) foram mostrados ao longo do artigo, assim como, levantamos também os problemas que levam a não unificação do título.

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