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Fraqueza da última linha

Provavelmente não existe jogador que não perdeu sequer uma vez uma partida por causa da fraqueza na última linha. A falta de uma “janelinha” por onde o rei pode sair em caso de um xeque inesperado na última fileira se mostra inúmeras vezes fatal.

Muitos jogadores interpretando, “adliteram”, os princípios estratégicos evitam jogar lances como h3 ou g3 para não enfraquecer a posição do roque. Sem contestar, de forma nenhuma, que estes lances enfraquecem a posição do rei e criam muitas vezes objetivos de ataque para o adversário, temos que constatar, que em muitos casos, especialmente quando os perigos de um ataque direto sobre o roque diminuíram devido a trocas de peças, uma “janelinha” se mostra necessária para evitar surpresas desagradáveis, como veremos nos próximos exemplos.

A partida entre Adams e Torre no Torneio de New Orleans em 1926, figura sem dúvida, em todos os tratados de tática do mundo. Isto não somente pela combinação perfeita, mas também pela forma estética que ela apresenta que nos deixa maravilhados, tornando este exemplo inesquecível. Esta posição poderia ser enquadrada, também na categoria das combinações baseadas em peças sobrecarregadas, pelo fato de que aqui a dama preta não pode defender a oitava linha. O elemento característico da combinação é a ameaça de mate na última fileira e por isso, este exemplo foi enquadrado neste capítulo. As brancas perceberam estes detalhes e começaram uma combinação de seis lances onde se verificou uma “volta ao mundo”.

1.Dg4! Db5 (esta é a única casa onde a dama preta pode colocar-se sem deixar a defesa da torre de e8. É claro que não se pode jogar 1...Dxg4 por causa de 2.Txe8+ seguido de mate) 2.Dc4! Dd7 (de novo a dama branca não pode ser tomada por causa do mate) 3.Dc7! Db5 (a dama branca continua sendo um “tabu” pela mesma ameaça) 4.a4! (atrai a dama para a casa a4 para poder sofrer novo ataque. Nota-se que se as brancas jogassem 4.Dxb7?, as pretas ganhariam por causa da fraqueza da oitava linha com 4...Dxe2! 5.Txe2 Tc1+ 6.Ce1 Txe1+ 7.Txe1 Txe1++. A falta da “janelinha” daria o ganho às pretas) 4...Dxa4 5.Te4!! (a chave da combinação! Agora, além da dama branca atacada em c7, também a torre de e4 está atacada duas vezes, mas ela também é um “tabu”, pois se 5...Dxe4 6.Txe4 e as pretas perdem a dama por uma torre em virtude de não poderem retomar a dama branca por causa do mate. E se 5...Txe4 6.Dxc8+ seguido de mate) 5...Bb4 6.Dxb7! agora as brancas ganham porque a dama preta não possui nenhuma casa na diagonal a4-f8 e percebe-se a diferença do comentário relativo ao lance 4, pois a torre branca estando em e4, ao invés de e2, tira o lance salvador Dxe1 das pretas.

O exemplo é de uma partida de Alekhine jogada em uma simultânea. Embora como se sabe o tempo de reflexão numa simultânea ser curto, com sua percepção tática, o ex-campeão mundial descobriu rapidamente o caminho da vitória explorando o rei preto em h8 sem “janelinha”. 1.Tc8! (o peão em d7 serve às brancas como ponto de sustento para a penetração da torre na oitava, apesar da casa c8 parecer estar suficientemente controlada pelas pretas) 1...Txc8 (se 1... Dxd7 2.Df8+ seguido de mate) 2.De7!! e as pretas abandonaram porque se 2...Dxe7 3.dxc8D+ e mate no próximo lance, e se 2...Tg8 3.d8D e as brancas ganham, pois possuem duas damas contra torre e dama.

Kotov, que na época era considerado um dos cinco melhores jogadores do mundo, achou que poderia tomar o peão em d4 sem maiores riscos e jogou 1.Cxd4? , mas seu jovem adversário - o mestre italiano Paoli - arrematou a posição baseado no tema que ora estudamos 1...Cc5 2.Dg4 (a dama branca precisa defender o cavalo e a torre de d1, pois se ameaça e5), não havendo inclusive a tentativa de contra-ataque 2.De3 e5 3.Df3 Txe4! 4.Txe4 exd4 5.Dxf6 Te1++. 2...Bxe4 3.Txe4 De5! 4.Td1 (única), De4!! (tema conhecido de exemplos anteriores: a dama branca está sobrecarregada, não podendo defender a torre de d1 e a si mesma. Não esquecendo ainda que a torre de c2 se encontra atacada!) Kotov vendo-se perdido, abandonou após alguns lances.

A seguir temos um exemplo onde as brancas exploram com uma combinação típica a fraqueza da oitava linha em conexão com a coroação de seu peão: 1.Dxd8! Txd8 2.Te8+ Df8 3.Bf7! e as pretas abandonaram porque não se pode defender a seqüência 4.Txf8+ Txf8 5.Be8 coroando em seguida.

Encerramos nosso capítulo mostrando um exemplo, a nosso ver espetacular, de uma combinação complexa que tem como objetivo explorar a fraqueza da oitava linha. Gheorghiu com as brancas, jogando esta partida na final do Campeonato Mundial Juvenil de 1961, arrematou sua vantagem posicional da seguinte maneira: 1.Txd6! (desvia um dos defensores do quadro c8 e coloca a dama numa casa desfavorável) 1...Dxd6 2.Cxf7+! Txf7 3.Te8+ Df8 as pretas são obrigadas a entregar a dama pois se 3...Tf8 seguiria a chave da combinação 4.Dd2!! e a dama preta não pode defender-se juntamente com a torre de f8 e o peão de h6. Agora as brancas tem notória vantagem material que concretizaram em apenas mais seis movimentos: 4.Txf8+ Txf8 5.Dd2 Rg8 6.Dd4 Tf7 7.Bxc8 Txc8 8.Dxc5 Tcf8 9. Bd4 e as pretas abandonaram.

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