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Mestre contra aficionado

Partida 1: Ataque prematuro

                                                                

Amigos enxadristas. Hoje começamos uma série de partidas que nos ajudarão a melhorar nosso nível de jogo, a medida que as analisemos. As mesmas são jogadas entre um jogador já experimentado e um aficionado, quer dizer, entre um mestre e um aficionado. 

Nesta partida, veremos como às vezes os aficionados atacam constantemente um mestre, vendo-se este obrigado a defender-se de suas ameaças. Aqui, o mestre nos demonstra como se deve afrontar as ameaças sucessivas do aficionado. O mestre se defende enquanto vai preparando sua posição para logo ganhar brilhantemente. 

Nesta partida observaremos um ataque prematuro, aos quais sempre estão acostumados os aficionados. 

Brancas: Aficionado 
Negras: Mestre 

1.e4 e5 

Esta é uma abertura de peão de rei, muito jogada por um aficionado. 

2.Dh5

Jogada de ataque muito comum em um noviço (aficionado). 

Esta forma de iniciar um ataque, tão diretamente, não é o correto para fazer pressão na casa f7 do negro, no momento desprotegida. Se detalhamos a posição vemos que as brancas não tem superioridade e as negras não estão em posição inferior. Qual é a razão disso? Primeiro: Antes de tentar iniciar um ataque, devemos completar o desenvolvimento das peças no tabuleiro. Segundo: não se deve tirar a dama para o jogo no inicio da partida, já que a expõe aos ataques de peças menores. Com isso, perdem-se tempos e não se desenvolve as outras peças. 

2...Cc6 

Se 2...d6 também defende o peão, porém isso é inferior a 2.... Cc6 já que o peão em d6 restringe as casas do bispo de f8. 

3.Bc4 

As brancas continuam com seu ataque prematuro ameaçando mate na indefesa casa f7. Para um jogador experimentado não é difícil parar este ataque. 

3...g6 

O melhor, porque com isto obriga as brancas a retirarem a dama, perdendo tempo. Claro, esta jogada produz debilidade no roque, porém é boa para defender-se deste ataque prematuro do branco. Com 3...Ch6 se protege o ponto f7, porém o cavalo tem sua ação limitada a poucas casas quando é colocado num extremo do tabuleiro. E se depois as brancas jogam: 4.d3 ameaçam. 5.Bxh6, gxh6 e mate com 6.Dxf7++; Outra alternativa seria: 3...De7 protegendo o peão de f7, porém fecha a saída do bispo de f8, o que não é bom. Se 3...Df6 também protege a casa de f, porém ocupa a melhor casa que o negro tem para colocar seu cavalo. E a dama pode ser facilmente expulsa daí com Bg5. 

4.Df3 

Volta a ameaçar mate, perdendo tempo. 

4...Cf6 

Com esta jogada, bloqueia-se a casa f7, atacada pelo branco, e desenvolve-se o cavalo. 

5.Db3 

Seguem o ataque a f7, perdendo outro tempo. 

5...De7

As negras se defendem uma vez mais. Bloqueiam a diagonal do bispo, porém agora o bispo colocado em g7 vai proteger as casas f6 e h6. Por outra parte, as negras podem terminar com o ataque branco jogando 6...Ca5 obrigando a troca do bispo. 

6.Cf3

As brancas preparam o cavalo para ver se conseguem seguir com o ataque. Tenho visto em muitas partidas como os aficionados, às vezes, só pensam em atacar e se esquecem, como neste caso, das ameaças negras. As brancas estão entregando um peão para se desenvolver. Não se dão conta de que com a jogada Ca5 do negro ficam em má posição. 

6...Ca5 

Pára o ataque branco. Na verdade, o cavalo negro chegou à casa a5 em duas jogadas e perdeu tempo. Porém, às vezes, há que dançar conforme a musica e, neste caso, a jogada das negras tem um duplo propósito. Primeiro: troca um cavalo por um bispo, o que sabemos que é uma pequena vantagem. Segundo: adeus ataque branco, porém há que estar com os olhos abertos porque se nos descuidamos pode ser perigoso. 

Um bom mestre de xadrez não se ilude fazendo : 6...Cxe4 porque atrasa o desenvolvimento das peças e vem: 7.0-0 e logo as brancas podem colocar sua torre na casa e1, recuperando seu peão e expulsando o cavalo, que terá perdido dois tempos para capturar o peão. As negras continuam seu desenvolvimento 7...Bg7 ( se 7...Ca5 8.De3 Cxc4 9.Dxe4 recuperando o peão) 8.Te1 Cc5 9.Da3 0-0 10.d4!+/=. 

7.Dc3 Cxc4 8.Dxc4 d6 

Se fizermos uma breve avaliação da posição, veremos que as brancas desenvolveram duas peças, porém não há apoio entre elas e as peças no flanco da dama estão sem desenvolver, o que evidencia que com seu ataque prematuro não obtiveram nada. Em troca, as negras desenvolveram duas peças e moveram três peões, abrindo diagonais importantes, ou seja, tem melhor posição. 

9.h3? 

Esta jogada é ruim. Debilita o flanco do rei branco, caso se faça o roque por esse flanco. Se é para impedir 9.... Bg4, isto não constitui uma ameaça (cravada) e as brancas se atrasam mais em seu desenvolvimento. Há que desenvolver as peças, jogando 9.Cc3 ou d3. 

9...Be6

As negras desenvolvem outra peça ganhando tempo. As brancas tem que mover a dama perdendo mais uma jogada para desenvolver outra peça. 

10.Db4 

Às vezes, os aficionados se sentem bem dando xeque "xeque que vêem xeque que dão" e jogam: 10.Db5+, ao que as negras podem responder 10...c6 evitando o xeque, defendendo seu peão de b7, fortalecendo o centro com seus peões e atacando a dama ganhando outro tempo. 

10...0-0-0 

Esta jogada de desenvolvimento permite às negras situar sua torre apontando para o centro, já que as peças brancas não estão desenvolvidas. Este roque pode ser mais perigoso do que o roque pequeno porém, como vemos na partida, a única peça branca no flanco dama é a dama. Há muito que recorrer para que possam lançar um ataque. 

11.Da4 

Segue o aficionado perdendo tempo atacando o peão da casa a7, o qual é muito simples de defender jogando Rb8 "encurtando" o roque. É melhor: 11.Cc3 ou 11.d3. 

11...Rb8

A jogada: 11...a6 debilita o flanco da dama negra e não é objetiva para um futuro ataque.

12.0-0? 

Esta jogada é ruim porque as brancas levam seu rei a um flanco um pouco debilitado e propenso a um ataque de parte do negro. Era melhor: 12.Cc3 ; ou 12.d3. 

Se observamos a posição, neste momento já estamos em uma das fases do xadrez conhecida como meio jogo: as brancas rocaram pelo flanco rei e as negras pelo flanco dama. Quando isso ocorre, o jogo se torna violento, já que nesta posição as brancas pensam em um ataque pela ala da dama e as negras pela ala do rei. 

Quem tem melhores possibilidades no ataque? Indubitavelmente, as negras. Por que? 

1.- As negras tem a maioria de suas peças concentradas no flanco rei e as peças brancas estão pouco desenvolvidas, estão em sua posição inicial. 

2.- O flanco do rei branco está débil pelo movimento do peão a h3. 

Neste momento, as negras devem lançar-se ao ataque, porém sob uma ação lógica e não desesperada, já que as brancas desenvolveram pouco suas peças. Quando se vai realizar um ataque, há que fazê-lo quando a posição do adversário é fraca, como neste caso. A debilidade das brancas, já sabemos, está em seu flanco rei e na sua falta de desenvolvimento. Se o peão que está em h3 das brancas ainda estivesse em h2, não existiria tal debilidade. 

No transcorrer da partida veremos com mais detalhe essa debilidade. Para atacar o rei negro rocado há que abrir linhas e situar as peças em casas próximas do contrário. 

12...Ch5

Inicia o ataque. As negras podem abrir colunas jogando: f5 e logo situando seu cavalo em f5 colocando as brancas ante um dilema. 

13.Cc3

Finalmente desenvolvem outra peça. Porém as negras não devem permitir que esse cavalo se situe na casa b5 e dar tempo para que as brancas iniciem seu ataque. Então jogam: 

13...f5 

O negro segue seu plano e não teme a jogada 13.....Cb5 porque podem expulsar esse cavalo jogando a6. 

14.exf5 

Abriu a coluna. Era melhor para as brancas: 14.d3 ainda que as negras podem responder com: 14...f4. 

14...gxf5 

As negras podiam escolher a abertura da coluna do bispo e preferiram a do cavalo. E você se perguntaria por que? 

1.- O ataque pela coluna cavalo rei (g1-g8) é muito forte já que as negras, na partida, podem colocar a dama e as torres pressionando o rei do contrário. 

2.- O peão g2 do branco só está defendido por seu rei, enquanto os do negro, na casa e5 e f5, exercem pressão e evitam que as brancas entrem com suas peças. 

15.Cb5?

Jogada de noviço, ameaça ganhar um peão com: 16....Dxa7+ ou 16....Cxa7, porém esta simples ameaça é evitada facilmente, ganhando outro tempo mais com: 15....a6, ainda que se debilitaria um pouco a posição do rei negro. Porém, neste momento, essa jogada é necessária. 

15...a6 16.Ca3? 

Outra "novatada". O cavalo se retira perdendo tempo e situando-se numa casa à margem do tabuleiro, onde terá pouco domínio de casas importantes. Se: 16.Cc3 vem 16...Tg8 e ...Cf4 com duplo ataque. Depois de 17.d3, as negras aumentam a pressão na coluna g1-g8 jogando: 17...Dg7 18.Ce1 Be7 e se 19.Rh2 f4 20.Ce4 Bh4. Com a jogada 16.Ca3? as negras estão cômodas, tendo a casa d5 para seu bispo. 

16...Cf4 

O que podemos ver nesta posição? Pensemos um pouco. Há uma posição ganhadora para as negras jogando 16....Tg8. 

17.d3 

As brancas abrem a diagonal de seu bispo e exercem pressão na casa f4, eliminando o cavalo negro, reduzindo o ataque. Porém, nestas posições, são perigosos e oportunos os sacrifícios de peças, já que existem peças no território inimigo e linhas abertas. Porém, digo-lhes, há que calcular bem as variantes e suas conseqüências, antes de lançar-se a um ataque contra o rival porque, do contrário, podemos lamentar depois. 

17...Cxh3+ 18.gxh3 

Que compensação há com este sacrifício? As negras abriram totalmente a coluna do cavalo rei (g1-g8) e devem dar mate porque, do contrário, estarão perdidas. 

18...Tg8+!

Também é "jogável" 18...Bd5. 

19.Rh2

Se: 19.Rh1, é muito forte 19...Bd5 recuperando peça. As negras realmente dominam a coluna cavalo rei? E vocês dirão: porém se as brancas jogarem 20.Tg1 param esse domínio. Então as negras devem buscar uma jogada que evite 20.Tg1. 

19...Bd5 

Há que mover o cavalo, que está indefeso e não pode ser protegido. 

20.Ce1 

Se: 20.Cg1 Tg2+; ou 20.Cd2 Tg2+ e com isso tudo termina. Depois de: 20.Cg5 vem 20...h6; com: 20.Ch4 segue 20...f4 ( ou o sacrifício 20...Dxh4 21.Dxh4 Tg2+ 22.Rh1 Tg4+ 23.Rh2 Txh4 recuperando a dama com vantagem) ; depois de 20.Tg1 Txg1 21.Cxg1 Dg7 22.f3 Be7 23.Be3 Tg8 e isto é indefensável para as brancas. 

20...Dg7 21.Be3 

Protegem seu peão de f3 e desenvolvem outra peça, mesmo que seja muito tarde. Se fechassem a diagonal mediante 21.f3?? Dg3+ 22.Rh1 Dxh3#; À: 21.Dh4 as negras devem jogar. 21...Dg2+ recuperando a peça, porém diminui o ataque negro. Portanto, não vale a pena neste momento fazer isto: 22.Cxg2 Txg2+ 23.Rh1 Tg4+ 24.Rh2 Txh4 e se acabou o bom ataque. 

21...Be7 

Isto é o melhor. Impedindo que a dama branca se coloque na casa h4, para logo mover o cavalo comunicar as torres na primeira fila. 

22.c4 

Por fazer algo. 

22...Bc6 23.Db3 Dg2+ 

Quando há domínio, como neste caso, da coluna cavalo rei e da diagonal h1-a8 os sacrifícios são espetaculares. 

24.Cxg2 Txg2+ 25.Rh1 Txf2+ 

Xeque descoberto e a torre vai e vem. 

26.Rg1 Tg2+ 27.Rh1

Poderíamos seguir tomando peões e recuperar a dama, porém há que arrematar a partida. Depois de tantos sacrifícios, é necessário definir. 

27...Tdg8

Não vale a pena: 27...Txb2+ 28.Rg1 Txb3, repito há que definir. 

28.Bg5 T2xg5+ 29.Rh2 Tg2+ 30.Rh1 Tf2# 

Bom, amigos leitores, interessante partida! 

A partir de hoje, começamos a analisar partidas entre Aficionado e Mestre. Como lhes disse no início desta partida, as aulas, que são outro tema, continuarão. 

Vimos nesta partida uma série de jogadas errôneas por parte do noviço. Trago-lhe essas análises para que não caiamos nós nesses erros. Porém, quando jogamos uma partida e perdemos, nosso nível de jogo melhora se as analisarmos procurando os erros cometidos.

Até breve, caros amigos enxadristas. 

Prof. Erich González 

E-mail: edgonzal@luz.ve 

TRANSCRIÇÃO Pelo Professor ERICH GONZALEZ, na Cidade de Maracaibo, Estado Zulia, Venezuela, das LIÇÕES DO Dr RAFAEL BENSADÓN, EM APONTAMENTOS TOMADOS PELO ALUNO ERNESTO CARRANZA. 

(Tradução: Anderson de Jesus)

Os diagramas desta página foram feitos com o programa Chesstool 
de Guillermo Gajate.