14/10/03

Derrotado pelo celular

 

David Lhada

  

O Campeão do Mundo, Ruslan Ponomariov, é punido com a perda do ponto ao tocar seu telefone celular na metade de uma partida.



[Ruslan Ponomariov, ano passado, em Benidorm. Foto: David Lhada]     Cada vez que um Campeão Mundial perde uma partida, o fato se converte, invariavelmente, em noticia. As derrotas das grandes estrelas desse esporte são muito escassas e os aficionados ao xadrez, como os de qualquer outro jogo, sentem uma compreensível curiosidade quando estas acontecem.

Se, além disso, esse descalabro se produz em circunstâncias especiais, como, por exemplo, frente a um jogador de muito menos categoria, ou de pouca idade, o pitoresco da situação transcende o mundo enxadrístico e a noticia costuma ter espaço, então, em meios de comunicação de âmbito geral. Podemos encontrar muitas amostras disso: basta recordar a famosa derrota de Kasparov diante de Radjabov, em Linares, e sua repercussão nos meios espanhóis. Ou seu mas recente tropeço no Campeonato da Europa de Clubes, quando a partida que perdeu em somente 22 jogadas apareceu publicada em todos os diários de Grécia.

Entretanto, nunca se tinha visto uma derrota tão insólita e fulminante como a que sofreu o vigente campeão da FIDE, Ruslan Ponomariov, na primeira rodada do Campeonato da Europa por equipes: seu telefone celular tocou na metade de seu encontro com Eugeni Agrest e isso motivou que o árbitro adjudicasse imediatamente o ponto ao Grande Mestre sueco.

Este fato desencadeou a controvérsia em Plovdiv (Bulgária), onde se disputa a prova. Para começar, Ponomariov se negou a assinar a planilha com o resultado, como é preceptivo. E, por outro lado, não se descarta que sua imprudência acarrete alguma outra sanção além da perda da partida.

Obviamente, resulta muito censurável (e, sem dúvida, perfeitamente sancionável) que um jogador entre na sala de jogo com seu telefone móvel ligado, ainda que seja em modo silencioso, já que poderia ser usado para receber ajuda externa durante a partida. Porém, resulta surpreendente a escassa regulamentação (e a total ausência de controles) que existe no xadrez a este respeito.

Nos grandes matches pelo título mundial, quando há somente dois jogadores no cenário, a situação é muito diferente. Em Londres, 2000, por exemplo, recordo ter visto Kasparov falando por telefone na porta do edifício até instantes antes do começo das partidas. Sem dúvida, estava apurando ao máximo o tempo para receber as últimas instruções de seus analistas e, inclusive, em algumas ocasiões, sentou-se com atraso diante do tabuleiro. Porém, uma vez ali, tudo era examinado minuciosamente, desde o conteúdo de seus bolsos até as geladeiras que cada jogador tinha a sua disposição na sua sala de descanso. Outro caso, muito mais famoso, é o do match Karpov-Korchnoi de Bagio, 1978, quando Korchnoi exigiu que o iogurte que diariamente era servido a seu rival na metade da partida fosse sempre do mesmo sabor e que fosse levado a sua mesa exatamente à mesma hora, à cada dia. Qualquer modificação nessa rotina poderia ser, segundo ele, uma forma de se enviar uma mensagem em código a Karpov por parte de sua delegação.

Por outro lado, em torneios com maior afluência de público (como é este Campeonato da Europa), os jogadores não passam por nenhum tipo de controle, o que já tem provocado alguns incidentes. Por exemplo, no Campeonato dos Estados Unidos deste ano, um dos jogadores, Markson, recebeu uma chamada de telefone de sua mulher. Sem nenhum reparo, respondeu e falou com ela durante uns minutos. O árbitro, desconcertado, não encontrou no regulamento nenhuma indicação a respeito, pelo que decidiu penalizar o jogador descontando-lhe dez minutos de seu relógio. Porém, como conseqüência, a Federação Americana decidiu endurecer seu regulamento para as próximas edições. Outros casos ainda mais escandalosos tem se produzido em torneios "Open" e de aficionados.

Nesta ocasião, as bases do Campeonato da Europa são inovadoras, porém muito claras a respeito: literalmente dizem que "não está permitido ser portador de um telefone móvel na sala de jogo. A violação desta norma será castigada, de acordo com o artigo 13.4 das Leis do Xadrez, com a perda da partida". Entretanto, vários jogadores se queixaram de que estas bases não lhes foram entregues até a conclusão da primeira rodada e, de fato, não figuravam previamente na web oficial do Campeonato.

A falta de uma regulamentação clara e de algumas medidas firmes de controle já tem sido criticadas por muitos jogadores, incluído o próprio Kasparov, que assinalava o absurdo que resulta o fato dos enxadristas serem submetidos à controles antidoping, mas não passarem por um detector de metais na sua chegada à sala de jogo. Sem nenhuma dúvida, a polêmica vai ter muito eco nos próximos dias.


NOTA: Para fazer este incidente ainda mais anedótico, há que assinalar que Ruslan completava 20 anos de idade precisamente nesse dia; inclusive havia sido homenageado com um ramo de flores por parte da organização, justamente antes de começar a partida. Quem sabe se a fatídica chamada de telefone que lhe custou a partida não se trataria de uma felicitação!


(Tradução: Anderson de Jesus)

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Este artigo foi traduzido com permissão do autor.