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Em 1886, o campeonato mundial de xadrez
foi oficialmente reconhecido com a primeira disputa pelo título
mundial entre Steinitz e Zukertort. Steinitz (de 1886 a 1894), Lasker
(de 1894 a 1921), Capablanca (de 1921 a 1927), Alekhine (de 1927 a 1935)
e Euwe (de 1935 a 1937) foram os campeões mundiais que escolhiam
os adversários e as condições para a disputa do
título, sendo que às vezes o desafiante não conseguia
reunir a bolsa suficiente para enfrentar o campeão. Vários
jogadores da época de Lasker ficaram excluídos da disputa
do título: Reti, Rubinstein, Nimzowitsch, Tartakover e Pillsbury.
Além disso, Lasker ficou dez anos (1911-1920) sem colocar o título
em jogo, sendo um dos motivos a Primeira Guerra Mundial (1914-1918).
Em 1937, Alekhine (russo, mas naturalizado francês desde 1925) foi o primeiro campeão mundial a recuperar o título no match revanche contra Euwe e o manteve sem defendê-lo até sua morte em 1946. A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) impediu que Alekhine colocasse o título em jogo. Em 1946, quando já estava em negociação seu match contra Botvinnik, o campeão veio a falecer em Estoril, Portugal. Anos depois, seus restos mortais foram transladados para Paris, França. Há uma lápide e um tabuleiro de xadrez sobre o seu túmulo que está no Cemitério Montparnasse. A FIDE, ao declarar a vacância do título mundial (1946-1948), propôs a realização de um match-torneio para a consagração de um novo campeão. O torneio foi organizado em 1948 e deveria ser disputado pelos seis melhores jogadores da época: Botvinnik, Keres, Reshevsky, Euwe e Fine - melhores colocados em Nottingham 1936, Semmering Baden 1937 e AVRO 1938 - e Smyslov (campeão de Moscou em 1938, 1942, 1944/5), já que haviam morrido os campeões Lasker (em 1941), Capablanca (em 1942) e Alekhine (em 1946). Fine declinou do convite e Euwe, que queria reassumir o título com a morte de Alekhine, viu-se obrigado a jogar o match-torneio e terminar num melancólico último lugar. Torneio, enfim, disputado com cinco jogadores em cinco turnos (vinte partidas por jogador): Botvinnik 14 pontos, Smyslov 11, Keres e Reshevsky 10 ½ e Euwe 4. Botvinnik tornava-se, assim, o sexto campeão mundial e a FIDE criou um sistema de disputa entre os melhores jogadores, um match-torneio nos moldes do match-torneio de 1948, para indicar o desafiante ao título. Os Torneios de Candidatos de 1950, 1953 e 1956 foram disputados em turno e returno classificando-se o primeiro colocado para enfrentar o campeão mundial. Este jogava pelo empate em 12 a 12 (critério sempre existente e que se manteve até a década de 1990, com exceção do curto período de 1978 a 1984) e ainda tinha direito à revanche. A supremacia soviética era muito grande e, durante o período de 1951 a 1963, classificaram-se Bronstein, Smyslov (duas vezes), Tal e Petrosian. O direito de revanche existia e Botvinnik pôde recuperar o título após perdê-lo para Smyslov (1957) e Tal (1960). O direito de revanche foi suprimido em 1963 e, após Botvinnik perder para Petrosian, o ex-campeão descartou a hipótese de disputar todo o ciclo do campeonato mundial (Zonal, Interzonal e Torneio de Candidatos). Os Torneios de Candidatos de 1959 e 1962 foram disputados com oito jogadores em quatro turnos (vinte e oito partidas para cada jogador). Nesta época, já existia a figura de Fischer que questionava a forma de disputa do Torneio de Candidatos. O motivo da crítica era que os jogadores soviéticos estariam fazendo "jogo de equipe" e, assim, Fischer teria que derrotar todos eles para poder classificar-se. Fischer teria que jogar partidas duras para conseguir empates, enquanto os jogadores soviéticos empatavam rapidamente entre si. Finalmente, depois das críticas de Fischer, a forma de disputa do Torneio de Candidatos passou a ser em matches eliminatórios, o que impediria os empates rápidos entre os jogadores soviéticos. No torneio de candidatos de 1965 e 1968, sobressaiu-se Spassky. Petrosian manteve o título contra Spassky em 1966, mas veio a perdê-lo para o mesmo Spassky em 1969. Fischer
não jogou o Interzonal de Amsterdam (1964), abandonou o Interzonal
de Sousse (1967) na metade de sua disputa, mas finalmente venceu o Interzonal
de Palma de Mallorca (1970) e, assim, classificou-se para a disputa
do Torneio de Candidatos no sistema que ele havia proposto e que a FIDE
havia adotado. Em 1971, Fischer venceu com um avassalador 6 a 0 contra
Taimanov, depois um novo 6 a 0 contra Larsen e a decisão do Torneio
de Candidatos contra o ex-campeão Petrosian, por 6 ½ a
2 ½ (+5=3-1). Em 1972, Fischer derrotou Spassky no match do século,
o confronto EUA x URSS que repercutiu no mundo todo por causa da Guerra
Fria e foi disputado na gélida Reykjavik (Islândia). O
match programado para vinte e quatro partidas terminou antes com 12
½ a 8 ½ para Fischer (+7=11-3), o décimo-primeiro
campeão mundial. Karpov,
que ganhara a final do Torneio de Candidatos (+3=19-2) contra Korchnoi
em 1974, voltou a enfrentar o mesmo Korchnoi, agora pelo título
mundial, em 1978 e 1981. O exilado soviético ganhara os Torneios
de Candidatos de 1977 e 1980, enfrentando os jogadores soviéticos
e toda a nomenklatura (palavra russa para classe burocrática
privilegiada) soviética. Em 1978, a polêmica vitória
de Karpov por +6=21-5 (a regra era de seis vitórias sem limitação
de partidas), fez Korchnoi declarar que Karpov era um "campeão
de papel". Em 1981, com a família proibida de deixar a URSS,
Korchnoi não mostrou tanta resistência contra Karpov que
ganhou por +6=10-2, em Merano (Itália). Posteriormente, em 1990,
Tal conversou com Korchnoi e revelou-lhe que a nomenklatura soviética
tinha planejado assassiná-lo em "acidente forjado",
caso ele ganhasse a polêmica 32ª partida do match de Baguio
(Filipinas) em 1978. O comentário de Korchnoi, na Olimpíada
de Novi Sad, em 1990, foi de que perdera a partida, mas salvara a vida
sem saber. Em
1985, Kasparov venceu Karpov em novo match limitado a vinte e quatro
partidas (+5=16-3), como era o sistema de 1951 a 1972. Em 1986, Kasparov
foi obrigado a conceder um match revanche, mas manteve o título
por +5=15-4. Em 1987, excepcionalmente, Karpov enfrentou Sokolov (campeão
do torneio de candidatos) e derrotou-o por +4=7-0. Assim, Kasparov enfrentou
novamente Karpov, naquele mesmo ano, no final do ciclo do campeonato
mundial, quando manteve o título apenas na última partida,
num dramático 12 a 12 (+4=12-4). O direito ao match revanche
havia sido extinto, mas permaneceu o direito à manutenção
do título em caso de empate. A disputa pelo título FIDE (1997/1998) iniciada em dezembro de 1997, em Groningen, na Holanda, foi um evento diferente na história do xadrez: nas seis primeiras fases foram matches eliminatórios de duas partidas, depois a semifinal com match de quatro partidas e a final com match de seis partidas (sempre com tie-break para desempate, partidas rápidas e blitz). Karpov entrou apenas para defender o título. Kasparov recusou-se a disputar o título FIDE para não reconhecer seu arquirrival Karpov como campeão. Kramnik também não aceitou jogar porque não concordava com o privilégio dado a Karpov. Em janeiro de 1998, em Lausanne, na Suíça, Karpov manteve o título [após um empate em 3 a 3 (+2=2-2), venceu no tie-break de partidas rápidas por 2 a 0] ao enfrentar Anand que tinha sido o extenuado sobrevivente, sem tempo de preparação e com um mero dia de descanso antes da final; após a loteria de 100 jogadores no sistema de matches eliminatórios na primeira fase, com 14 jogadores pré-classificados entrando direto na segunda fase e, assim, os 64 jogadores enfrentando-se em matches eliminatórios e, depois, sucessivamente 32 jogadores, 16 jogadores, 8 jogadores, 4 jogadores e 2 jogadores (o vencedor sendo o desafiante ao título). Na premiação, Anand foi recebido com aplausos pelo público e Karpov, com frieza. Logo surgiram contra ele acusações de uso de parapsicólogos (como em 1978) para perturbar o adversário. O sistema de matches eliminatórios foi mantido pela FIDE para a disputa do título (1999/2000). Setenta e dois jogadores na primeira fase, classificando-se 36 jogadores, com 28 pré-classificados entrando direto na segunda fase e assim os 64 jogadores enfrentando-se, sucessivamente, em matches eliminatórios. Entretanto, Karpov perdeu o privilégio de esperar o desafiante. Ele teria que disputar os matches e recusou-se a jogar. Na seqüência de matches curtos, Khalifman tornou-se o novo campeão FIDE, pelo sistema nocaute, ao derrotar Akopian por +2=3-1, em Las Vegas, em agosto de 1999. Pouco mais de um ano antes, em junho de 1998, Shirov havia derrotado Kramnik e, assim, seria o desafiante de Kasparov pelo título do World Chess Council (WCC). Entretanto, este match não ocorreu por falta de patrocinadores e desacordo entre os jogadores. Em 1999, a tentativa de organizar-se o match Kasparov-Anand também não deu resultado. Kasparov conseguiu que a disputa pelo título continuasse existindo (agora com o nome de Braingames World Championship), mas acabou derrotado por Kramnik, em Londres, na disputa ocorrida em out-nov de 2000 por +0=13-2. Enquanto isso, a FIDE decidiu tornar a disputa anual e utilizou novamente o sistema nocaute de matches eliminatórios para o título FIDE (2001), Anand e Shirov classificaram-se durante a disputa realizada em Nova Delhi, na Índia, em nov-dez de 2000. Na final, realizada em Teerã, no Irã, em dezembro de 2000, Anand acabou sendo o vitorioso no match contra Shirov por +3=1-0. Na disputa pelo título FIDE (2002), novamente com o sistema nocaute de matches eliminatórios, Ponomariov e Ivanchuk classificaram-se durante a disputa realizada em Moscou, na Rússia, em nov-dez de 2001. Na final, disputada em janeiro de 2002, Ponomariov venceu Ivanchuk por +2=5-0. Aos 18 anos, Ponomariov tornava-se o mais jovem campeão FIDE pelo sistema nocaute. Kasparov havia iniciado negociações de reaproximação com a FIDE para que ele, como nº 1 do rating, pudesse jogar um match contra o novo campeão FIDE. Em 6/5/2002, Kasparov, Kramnik e Kirsan Ilyumzhinov (presidente da FIDE) assinaram o Acordo de Praga que estabelecia a reunificação do título mundial: a) Kasparov jogando contra Ponomariov; b) Kramnik enfrentando o vencedor do torneio de Dortmund; c) os vencedores dos matches decidindo quem seria o novo campeão num match de reunificação do título. Em julho de 2002, em Dortmund, Leko venceu a disputa para ser o desafiante de Kramnik. Dois grupos de quatro jogadores com turno e returno, classificando os dois primeiros de cada grupo para as semifinais e os vencedores disputando a final: Leko venceu Topalov por +2=1-1. Em
janeiro de 2003, a FIDE deu um ultimato à Ponomariov para que
este assinasse o acordo de jogar o match contra Kasparov e ameaçou
tirar-lhe o título. Depois de longas negociações,
o acordo foi assinado em fevereiro. O match estava previsto para junho,
em Buenos Aires, mas foi postergado para setembro, em Yalta (Ucrânia),
cidade às margens do Mar Negro. Em agosto, Ponomariov recusou-se
a assinar as condições do novo match e este foi cancelado.
A FIDE deveria substituí-lo por Ivanchuk, mas decidiu manter
a proposta de reunificação do título que passou
a ser: um match entre o novo campeão FIDE (definido em torneio
com 128 jogadores) e Kasparov; Kramnik e Leko jogando um match; os vencedores
decidindo quem é o novo campeão mundial. Será que
teremos um único campeão mundial em 2005?
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